sábado, dezembro 23, 2006

Uma campanha alegre

O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes
estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da
vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que
não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os
cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. A
classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados
a uma rotina dormente. O desprezo pelas idéias aumenta em cada
dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima
a baixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu
as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das
secretarias para as mesas dos cafés. A ruína econômica cresce, cresce,
cresce… O comércio definha. A indústria enfraquece. O salário
diminui. A renda diminui. O Estado é considerado na sua ação fiscal
como um ladrão e tratado como um inimigo.
Neste salve-se quem puder a burguesia proprietária de casas
explora o aluguel. A agiotagem explora o juro.
(…) A intriga política alastra-se por sobre a sonolência
enfastiada do País. Apenas a devoção perturba o silêncio da opinião,
com padre-nossos maquinais.
Não é uma existência, é uma expiação.
(Eça de Queirós. Obras de Eça de Queirós. vol. III. Porto:Lello & Irmão, [s.d.], p. 959-960.)
(Escrito em Junho de 1871!)

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